sexta-feira, 18 de maio de 2012

"Eu ia ao cinema com a minha avó. Ela usava galochas e não gostava das cenas de amor. Eu, por outro lado, adorava. Nessas cenas, ela começava a esfregar os sapatos de borracha e fazia barulho. Os filmes eram silenciosos, havia um pianista. Eu tinha a impressão que o barulho podia ser ouvido em toda sala. Isso não me deixava curtir as cenas de amor como eu queria.

Era muito constrangedor."

Ingmar Bergman 

O CONCEITO É ABSURDO. A IDEIA DE QUE SÓ PODE SER COMPLETO COM OUTRA PESSOA É MAU! CERTO?

Caio

Te escrevo com um cigarro aceso e uma xícara de chá de boldo. A escrivaninha é muito antiga, daquelas que têm uma tampa, parece piano. Tem um pôster com Garcia Lorca na minha frente. Um retrato enorme de Virginia Woolf. E posso ver na estante assim, de repente, todo o Proust, e muito Rimbaud, e Verlaine, Faulkner, Italo Svevo, William Blake. Uma reproduções de Picasso. Outras de Da Vinci. Um biscuit com um pierrô tão patético. Uma pedra esotérica ainda de Stonehenge, Inglaterra, uma caixinha indiana. Todos os meus pedaços aqui. E você não me conhece, eu não conheço você.
Te escrevo por absoluta necessidade. Não conseguiria dormir outra vez se não escrevesse.





sexta-feira, 11 de maio de 2012

Quero me encontrar, mas não sei onde estou.


BUSCANDO OUVIR-SE


Gosto de ti.

Gosto de ti.

Gosto desse teu jeito dobrado, calado, afagante e malgrado de ser. Gosto de ouvir a voz que acalente toda minha sofridão e me deixa, mesmo que por tempo pouco, um tico mais linda. Viva. Perfeita.

Gosto do gosto de gostar de você. Gosto de olhar-te e  contemplar toda essa sua corpulência masculina e forte, que faz com que eu pense que posso pensar em um dia te querer. Que um dia  ainda terei você. Que um dia ainda me invejaram por ter você.

Sortudos aqueles que tem mais tempo olhando-te do que eu, que te vejo apenas de relance, quando vejo.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu. Estou hoje dividido entre a lealdade que devo á tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora, e á sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Tristeza de verão:

E quando a tristeza de verão abate aquela que deveria sobreviver sorrindo, acabou-se tudo. O fim aproxima-se e para tristeza de mim mesma, eu espero o real fim. Aquele que vai livrar-nos das dores constantes e da depressão continua.
Em uma noite de lua totalmente cheia, eu vou ainda observar as estrelas e esquecer de toda a tristeza que trago no coração e tudo que já ouvi. E senti. Eu queria realmente esquecer, queria esquecer de vez. Quando a coragem enfim chegar, talvez eu possa fazer com que eu esqueça. Alguns poderam dizer que eu fui fraca, ou talvez forte. É preciso ser forte pra acabar com tudo que te aflige, certo? Sei que minha irmã irá me recriminar, porque pra ela, isso tudo, os sofrimentos até valem a pena, daí. Mas, de que adianta sofrer por nada? Sofrer por sentir-se tão  injustamente rebelde, e sofrer por sentir-se desprezada e injuriada? Sentir. Quando sinto frio, não é só por fora, pode-se aquecer um coração que desde pequena sempre foi levada ao desespero e posta em prova? A toda prova de que nunca seria feliz. Não enquanto estivesse vivendo com aquele ou esse, que não gosta nem um pouco de ti. Que já fez tanto por você, só pra que pudesse prender você e jogar sempre na sua cara que você está onde está hoje por ele. Não necessariamente por ele, mas por ela. Sua mãe. A protetora, que sofreu ainda jovem. Aquela que fez o que fez porque poderia aguentar de tudo. Foi o que ela pensou, imagino. Mas, o fim se aproximou como a mão de um homem que joga o peso de seu corpo contra a fraca  mulher que significaria, em momentos de felicidade, alguma alegria, e talvez um "tudo".
Só me sinto cansada.
Cansada de toda essas palavras jogadas por fora da boca falante, e das palavras não ditas pelas bocas caladas. As palavras que realmente importam pra serem ditas, e quem sabe ouvidas. Falta o sopro de vida, e falta o jogar de braços do lado do corpo e caminhar como se não houvesse caminho. Como nunca houve caminho nenhum pra alguém que não é amada. Os feios corações que esquecem que sempre há uma metade. Aquela dos contos de fadas que pode aquecer o coração frio e sem esperança.
Nada de bom nunca acontece comigo. Não é isso que todos dizem? Solte as rédeas do coração, se jogue. Fuja e corra contra o tempo que te prende tanto; Corra pra longe de tudo que te aflige e volta. Volta e me conta como foi. Volta e sussura no ouvido meu como foi poder ser "livre". Como foi poder sorrir sinceramente sem preocupar-se com um fim.
Nada do que eu escrevo é verdadeiramente o que quero expressar. Nada parece adequado o bastante pra tudo aquilo ou isso que sinto. Nunca consegui indentificar todos os sentimentos confusos e sem nexo que tenho dentro de mim.
Quando era pequena ficava olhando as outras crianças brincar, caminhar, conversar com outras crianças e aquilo tudo parecia tão estranho pra mim. Eu simplesmente não conseguia me comunicar com as outras crianças porque tudo oque saia da boca delas, me parecia estúpido e rude demais pra ser considerado uma conversa. Ainda hoje eu penso assim. Ainda hoje tudo o que todos eles dizem me parece rídiculo e confuso. Confuso pra mim, não que eu tenha algum tipo de deficiência, não aparente. Mas, quem sabe não é? Eu talvez tenha aquilo que todos chamam de "aversão ao mundo externo á sua cabeça".
Pondo as mãos no rosto, ele olhava o longe, observando a derivação da paisagem, e os confins do mundo.Olhava aquilo tudo que passava rapidamente pela janela transparente da condução lotada.
"EM DEMASIA,

Em demasia

Demasiadamente vivo em demasia. Nesta de viver. Nesta de ser. Nesta de querer ser aquilo que não sou. Aquilo que esperava ser e que talvez um dia seja. Em demasia vivo. Por uma vida. Uma vida em demasia loucura de estar sendo um outro ser que supostamente deveria ser só pelo gosto de ver estar sendo. Vivo demasiadamente em demasia de querer viver.

De querer.

Venha-me já que demasiado quero-lhe para mim, só pelo gosto de querer tocar-lhe os lábios na ponta da língua e exalar teu cheiro pelas pestanas entreabertas esperando que tu me venhas retirar-me o mel da boca para com seu gosto fazer-me mulher.

Aguardo-te a espreita com sede de desejo de ser-lhe tua mulher, amante, esposa, namorada. Mulher. Anima-te e aninha esse teu rosto barbudo na minha pele macia, passa-lhe os dedos miúdos pelas minhas orelhas e desliza-me por entre minhas entranhas para me fazer ser-te tua. Só. Saúda-me com teu olhar por entre essa demasia de querer-te todo dia. Toda hora. Todo tempo. Sempre. Sendo. Aquilo que já não sei mais quem sou. Venha-me roubar-me a vergonha de já não ser mais moça e ser somente tua mulher, amante, esposa, louca. Entretém-se por dentro dos meus cabelos que eu procuro por dentro dos teus, aquilo que um dia eu puder chamar de meu, que eu já não mais posso viver sem. Faz-me tua. Beija-me por inteira da ponta da língua até a ponta do pé para fazer-me por outra metade que em mim já não é mais meu e seu.

Deixe-lhe a respiração acelerar quando eu sem vergonha alguma caminhar os dedos por teu corpo nu e fizer-te ruir de espasmos com meu toque gélido. Mordiscarei tua orelha e farei tua garganta ergue-se de sufoco quando eu aperto-te tão forte junto a mim que não saiba como soltar. Desaprenda a soltar-me. Deixe-me ser tua por hora, por minuto, por dia, por semana. Por vida.
Esqueça como se soltar de mim. Tornemo-nos um.

Até que não haja mais hora, mas respiro, mas choro, mas grito.

Desenha meu rosto com os olhos entreabertos e os dedos a passar delicadamente por minha coluna, sem vergonha deixem-lhes vagar pelas minhas costas e deixe brincando com as suas caricias, até que seus dedos tomem-lhe a mão por inteira, até que um arrepio surja no pescoço e venha morrer na cintura nua, a espera do teu aperto. Perca-se por minhas coxas, brinque com meus joelhos e brinde seu lábio com a saliva do teu desejo.

Demasia. Em demasia me toma. Suga-me. Corrompe-me. Engole-me.

Em demasia,

Espero-te."