Com as mãos brancas e de unhas feitas, segurava-se pra não cair ou tombar em alguém. Mas, mal sabia ele que já havia feito as duas coisas. Tombado em alguém, e caído. Caído tantas vezes quanto foram possíveis.
Era o começo da manhã ainda. Mais ou menos umas seis e meia, um pouco mais, um pouco menos. Mas, para o homem solitário, isso deveria não ter tanta importância, porque ele já havia esperando demais pela condução que sempre vinha lotada e abarrotada até as janelas de pessoas vazias e risonhas.
Os pontos foram passando, pessoas foram entrando e saindo. O motorista foi dirigindo. Risadas foram soltas. Trocadora. Troco. Guardar. Segurar. Dormir. Pensar.
Soltou a mão e esperou; esperou, esperou. E veio. Coçou o olho, e quando abriu o outro, viu que ela já havia entrado. A mulher.
Ela tinha feito alguma coisa no cabelo. Com azar, percebeu que ela havia passado maquiagem hoje. Um pouco demais pra alguém que iria apenas ao trabalho, não acha? Os olhos dela foram virando-se, e colaram-se nos olhos dele. Ele virou o rosto rapidinho e sentiu a garganta queimar, ou foi as faces? Sentia-se idiota e obsceno.
Os pontos foram passando, pessoas foram entrando e saindo. O motorista deu uma freada. Risadas foram se apagando. Trocadora. Troco. Esconder. Largar. Acordar. Sonhar.
Ele pensava que o bonito na manhã era a neblina fina e passante que se formava nas montanhas que ele via pela janela da condução lotada. Que o bonito pela manhã, era saber que poderia com sorte, pegar a condução lotada com a mulher. Mas, nem sempre ela entrava. Quem sabe seria o atraso, ou mesmo a falta de vontade de ir trabalhar. Ele, nesses dias que ela não pegava a condução, ficava reparando demais na neblina. Sentia-se firme. Não obsceno ou idiota. Mas firme. Firme porque sabia que ela não estaria dentro da condução lotada, e ele não teria que ir contra as próprias vontades pra olhá-la.
Passou. A neblina passou pela janela suja da condução lotada, e ele ficou lá, olhando ela passar.
O ponto dela chegou. Ela desceu. Elas e ele. O branquelo com jeito de gay com quem a mulher teve um relacionamento. Ele sabia disso por ficar ouvindo a conversa dela com os outros. Ele não tinha coragem de falar com ela. Intimidação talvez.
Ela desceu. Elas e ele. A outra também, como de costume.
O ponto do homem solitário chegou. Ele desceu logo depois das outras que conversava com a mulher, e esperou... Andou até o trabalho e esperou. Esperou que a hora começasse a passar pra ele almoçar. Ir embora.
A hora de almoçar chegou. Comeu arroz, feijão e um bife. Lembrou-se que a mulher era vegetariana e tinha os cabelos pretos. Mas já haviam sido de varias cores. Voltou ao trabalho e esperou. Esperou que a hora de ir embora o alcança-se;
Alcançou. Ele pegou a mochila e foi pro ponto. O condução vazia chegou, ele pagou a passagem e foi pra trás. O costumeiro assento perto da janela. Então esperou que o ponto da mulher chegasse e ele pudesse, com sorte, vê-la sozinha sem o homem de mãos de moça.
Ela estava com ele. O homem de mãos de moça. Ela pagou a passagem e entrou. Olhou pra ele e sentou-se correndo. Ele, o homem de mãos de moça sentou ao seu lado. Ela riu e passou a mão envolta dos ombros dele e deitou a cabeça no ombro dele. Aproximação de amigos. Amigos que tiveram e ainda tem alguma coisa. Ele virou o rosto pra janela e pensou.
Pensou que deveria falar com ela, mas que isso ficava só na cabeça dele. Pensou também que ela estava radiante hoje e que ela estava menos triste que ontem. E que ela não estava com a barra da calça dobrada. Ela. Ela. Ela. Ela. Sempre ela.
Pensou e pensou...
O ponto chegou e ele desceu logo atrás da mulher que se dirigia pra casa da outra mulher. Fingiu que não via. Mas via. Sempre viu que ela também tinha medo de falar com ele.
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