Um par de joelhos.
Um par de joelhos e um par de olhos sedentos por viver.
Viver cada traço de cada coisa. De cada inrealidade que possa obter.
Só viver.
Um par de mãos que não consegue mais não agarrar uma garrafa, ou um cigarro oferecido. É necessário pra se salvar. Pra poder viajar e olhar muito além do que é visto pelo par de olhos.
Quando aperta os olhos, eu posso ver muito além de tudo isso que penso ver. Eu posso ver muito além do corpo mole e suado de muitas pessoas. Da curvatura empinada e destroçada pelo peso da vida. Posso ver, a mim mesma, curvada e triste. A melodramaticamente mórbida.
E posso ver a ti. O menino que na infância que conheci pouco, era brincalhão. Solto. Retraído. E que guardava o maior segredo do mundo. O único menino que lia muito e era o inteligente. E que tem amigos, afinal. E posso ver agora, quando aperto os olhos, o menino mais retraído ainda. Que edita as coisas. Mas que, em espaços de tempo, e se pedido, diz o que pensa. Mas edita as coisas. Mas esconde as coisas;
E eu ando pelas ruas da cidade, mas não tenho um porquê. Eu só queria me sentir em casa.
Mas quando estou com você. É totalmente diferente. Seja onde for, eu me sinto em casa. Porque você é minha casa. Você é o meu melhor. És tudo o que eu queria ser. Garotos insanos, gritam.
E o fim dos tempos pra mim está chegando. Sinto isso. E eu vou renascer da morte. Seremos como fênix.
E nada é fácil, querido. Nada. Não me faça rir nem chorar. Me sinto tão cansada! Com o tempo, achei que tinha aprendido a olhar mais longe. Mas não, continuas olhando tão perto quando teu olho permite. São tantos autos e baixos, que já me sinto uma velha de cem anos. Cansada e decrépita. Com a alma mais suja e vazia de tudo. Somos dois?
E eu sinto uma tristeza de verão que vem consumindo todo o meu ser. Tudo o que eu deveria ser. Bate as notas da música, e eu só consigo pensar que eu deveria estar morta. Que eu quero remédios. Quero a noite pra que possamos não ver a claridade do céu e o sol. O maldito sol que queima todos os dias, mesmo que pouco. Que queima e deixa suar.
E beije-me enquanto ainda estivermos bons. E não me deixe lamentar no fim da bebedeira. Não me deixe cair. Não deixe que a nostalgia e a doença se arraste até mim. O telefone toca e eu não consigo levantar a mão pra pegá-lo. Sinto-me uma velha. Tristeza de verão. Inverno turbulento.
E você é o melhor.
Eu vou me vestir com a luz da lua hoje. Uma luz pálida e feia. Eu me sinto vivendo.
Querido, eu consigo sentir. Consigo sentir você em todo lugar.
Beije-me antes que a tristeza de verão acabe.
Finjo que finjo fingidamente que amo. Amo a tudo e a todos. E por vezes, sorrio falsamente pra esconder o tédio e a total falta de interesse. Rio e escondo a mim mesma. Por medo. Por vergonha. Consegue sentir a emoção das coisas?
E tem tantas coisas que nunca te contei. E tantas mentiras que contei pra esconder verdades horríveis.
E dentre todas elas, as mentiras, há uma afinal que nunca poderei revelar. Não uma mentira. Mas um segredo. Um segredo mentiroso. O único que magoaria você. A única coisa que você nunca conseguirá arrancar de mim, pois o tenho guardado no lado mais obscuro e desprovido de emoção que conheço em mim.

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